Segunda-feira, 27 de Agosto de 2007
Dissidências
O livro de Zita Seabra foi uma das leituras “obrigatórias” deste verão. Obra com algum interesse, apesar de não muito bem escrita e com uma toada aparentemente ingénua, que não corresponde a cem por cento ao perfil da autora... “Foi assim” (ed. Aletheia, Julho de 2007) constitui, de qualquer modo, um testemunho individual relativamente importante sobre a dissidência no Partido Comunista, analisada de um ponto de vista mais centrado nas vivências individuais e “históricas”, que nas questões ideológicas de fundo. Lê-se bem, mas sabe a pouco...
Teve, porém, o mérito de me recordar a existência, aqui pela estante, de um velho livrinho sobre o mesmo tema. “O Outro e o Mesmo” de Luís Martins, escrito em 1978 e editado em 1980 pela Contexto. Já lá vão quase 30 anos...
Custou-me, nessa altura, 120 escudos– tem o preço na contracapa – e foi patrocinado pela Secretaria de Estado da Cultura de então, para uma tiragem de 2500 exemplares.
Trata-se de um romance, pelo menos é o que está escrito no subtítulo, sobre a dissidência num outro Partido Comunista (o MRPP). Mas, neste caso, o autor insiste mais nas questões ideológicas - ou filosóficas ,como acentua - e nas suas divergências de fundo com a vivência interna, os comportamentos típicos e o caracter dogmático, uniformizador e seguidista dum outro, mas, no fundo, o mesmo, partido marxista.
Muitíssimo bem escrito, pode ser lido ou pela ordem normal das páginas , ou seguindo a ordem de numeração dos capítulos, que nos são apresentados descontinuamente. Os de numeração mais baixa referem-se de forma mais concreta à militância política no pós 25 de Abril, nomeadamente no meio estudantil das RGA’s , das reuniões de célula partidária, das cenas de colagem de cartazes e de pancadaria entre partidos rivais (curiosamente também relatados por Zita Seabra); os capítulos com numeração mais elevada são mais opinativos e neles se apresenta a argumentação teórica que fundamenta a dissidência do autor, que é licenciado em Filosofia e professor do ensino secundário. Apesar da auto-designação como romance, a obra pode, na minha opinião, ser também considerada como um ensaio. Tanto mais interessante quanto, lembremos, foi escrita numa época muito anterior ao desmembramento da União Soviética, em pleno auge da Guerra Fria e do desentendimento entre Russos e Chineses. Em Portugal vivia-se uma fase ideologicamente “confusa” em que o PREC já tinha terminado e o futuro do país era um bocado incerto (pelo menos...) e a leitura deste livrinho foi muito importante para mim e certamente para outros que viveram intensamente situações muito semelhantes nessa época fantástica de voluntarismo e utopia. Mantém-se, aliás, surpreendentemente actual e constitui um excelente complemento, mais elaborado, à leitura mais leve de “Foi Assim”.
Vejam se conseguem arranjar algum exemplar. Vale a pena!

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segismundoquê? às 16:06
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